Jornalismo e tradução [Journalism and translation]

Luc Van Doorslaer

Tradução por Inês Mendes, Susana Valdez & Iolanda Ramos

Índice

Handbook of Translation Studies  Volume 1 (2010), pp. 180–184. Translation: 2018ISSN 2210-4844

© John Benjamins Publishing Company

A relação entre a linguagem (conhecimento) e o jornalismo tem sido, frequentemente, estabelecida e descrita no limiar da linguística (discursiva, estilística, pragmática) e da investigação orientada para a comunicação, principalmente, em relação à recolha de notícias estrangeiras e à sua produção. No entanto, o interesse pela posição específica da tradução, tanto como processo e produto nesta interação, é relativamente recente. Nos ramos de investigação da tradução e da comunicação social, podem ser identificados vários sub-ramos. Van Doorslaer (2009), referindo-se a várias publicações recentes e utilizando dados quantitativos, demonstra que a esfera desta investigação se centra, principalmente, nos sub-ramos da tradução audiovisual (audiovisual translation), voiceover e dobragem (voiceover and dubbing) e legendagem (subtitling). Nestes sub-ramos, os aspetos relativos ao jornalismo da tradução para os media, bem como a posição da tradução no trabalho diário de um jornalista, não são manifestos objetos de estudo. No entanto, na sequência do projeto de Warwick sobre “Translation in Global News”, a tradução de notícias tem suscitado um interesse cada vez maior, assim como outros aspetos relacionados com notícias e tradução. Valdeón (2015) traça uma panorâmica dos últimos quinze anos de investigação dedicada à “Tradução Jornalística". As publicações mais importantes do projeto Warwick são as atas da conferência de Conway & Bassnett (2006) e, principalmente, de Bielsa & Bassnett (2009), a última publicação fruto do projeto. Esta explora o papel específico da tradução nas chamadas agências noticiosas mundiais (como a AP, Reuters e AFP), bem como nos textos de notícias traduzidas. Apesar das tendências para a globalização e padronização, o papel crescente desempenhado pela língua inglesa e até o domínio dos modelos de escrita anglófona (textos mais diretos e mais pequenos), ainda existe uma variedade importante na utilização de diferentes enquadramentos e práticas, estratégias e valores de tradução. Por vezes, esta variedade pode remontar às origens nacionais/regionais da agência noticiosa ou até a escolhas marcadas relativamente ao conteúdo, como, por exemplo, o caso da agência de notícias “alternativa” IPS. Foi alcançado um novo equilíbrio desde a publicação do afamado relatório MacBride, que critica a circulação desequilibrada de notícias no mundo e a cobertura dos media dos “países de elite” (MacBride 1980). Contudo, uma combinação complexa de relações de poder (continental, nacional, linguístico, político e ideológico) determina escolhas e decisões importantes, tendo em conta a seleção, a tradução e a edição de notícias. Christina Schäffner (2008) analisa um corpus de textos jornalísticos traduzidos e de frases políticas readaptados para o público-alvo (sem qualquer referência ao ato tradutório). A autora demonstra que as condições ideológicas e institucionais de produção tradutória têm uma importância decisiva nos casos do jornalismo e da comunicação política. Roberto Valdeón (2008), no seu estudo de caso sobre a BBC Mundo espanhola, identifica uma diferença fundamental no estatuto entre as culturas anglófonas e de língua espanhola, onde a importância da cultura anglófona, em relação à de língua espanhola, é frequentemente acentuada na cobertura jornalística. A seletividade jornalística visível na apropriação, tradução e edição de certos materiais influencia o enquadramento da perceção do mundo. Luc van Doorslaer (2009) revela uma clara correlação entre as agências noticiosas usadas como principais fontes de informação e os países que são abordados na cobertura jornalística internacional. Por exemplo, as redações belgas utilizam, maioritariamente, a AP e escrevem mais sobre os EUA. Aquelas que utilizam, principalmente, a AFP escrevem muito mais sobre a França. Mesmo que, hoje em dia, as agências noticiosas mundiais se apresentem como “globais”, as suas raízes são claramente evidentes. Fazem uso, inevitavelmente, das normas associadas às suas origens nacionais, o que se reflete na (não) seleção de princípios, bem como na sua abordagem estrutural. Desta forma, a questão da rutura com as suas origens nacionais e/ou regionais aquando da sua produção de notícias mantém-se (Bielsa & Bassnett 2009: 49).

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